Síndrome da perna perdida... em Londres


 Reza a lenda que, quando você perde algum membro do corpo, ainda consegue senti-lo vez ou outra.

Bom, às vezes eu sinto como se ainda estivesse em Londres. Como se pudesse simplesmente abrir a porta e pegar o elevador do décimo primeiro andar até lá embaixo, sem nunca saber realmente se está frio ou quente até o momento em que as portas abrem para a rua. Posso comprar um sanduíche do TESCO pra aguentar o dia, andar até a estação de North Acton, passar o Oyster, descer as escadas, pegar o metrô. Colocar minha música, fingir não estar encarando aquele cara bonitinho que acabou de entrar em Shepherd’s Bush.

Descer no Oxford Circus. Mind the gap between the train and the platform. Mind the gap. Pegar a fila para a escada rolante, passar o oyster, enfrentar a multidão no meio daquela selva de lojas. Tudo o que você sempre quis, apenas a alguns passos e muitas libras de distância.

Andar até a Bond street, parar pra olhar as vitrines da Selfridges, porque aquele lugar é mágico. Subir a rua até Baker Street, fazer um desvio de caminho e descansar um pouco no meio das flores do Regent’s Park. Sentar, ler um livro, assistir às famílias com as crianças fofas, as crianças com os cachorros fofos… Entrar no metrô outra vez, ir parar em East London sem motivo algum. Apenas por ir… Você nem sabe como chegou até lá, mas ali estão: Liverpool street, o Gherkin, Aldgate, aquelas ruelas esquisitas que me deixam perdida toda vez, a Tower of London, a Tower Bridge e então ele… O bom e velho Tâmisa. Eu sinto como se ainda pudesse sentir o cheiro dele, o vento no rosto, minhas mãos congeladas porque insisto em não usar luvas, porque insisto em colocar apenas uma jaqueta de couro e nada mais. Uma Starbucks, pelo amor de Deus! Mocha Frappucino quando está frio, eu sei, eu sou louca, mas chocolate quente só quando está realmente, realmente frio.

Entrar de volta no metrô na estação de Blackfriars. Porque é minha ponte favorita, porque me lembra de um livro que gosto, porque estou cansada demais para andar mais um metro. Acabar descendo (ou subindo, se você se importa com semântica) em Westminster mesmo assim. Só pra dar uma olhada… No Big Ben, a London Eye, o Parlamento.

Ainda posso sentir o arrependimento passar por cada célula do meu corpo. O que diabos vim fazer aqui? Olha pra esse tanto de turista! Licença, por favor! Eu não preciso mais tirar selfies com o Big Ben, já fiz isso o suficiente, brigada! E então correr para a estação feito um fugitivo da polícia.
Hm, agora está quieto! Agora está quente. Quente até demais. Fervendo, pra falar a verdade. Deus, por que não colocam ar-condicionado nesse treco? Ainda posso sentir a indecisão. Que linha eu pego agora? District and Circle é tão.tão.tão.lenta que dá vontade de atirar na própria cabeça. Talvez a Jubilee, trocar na Bond Street. Pegar a Central line de volta para North Acton. Entrar no trem errado, ter que esperar em white City. Ah, estou tão cansada! Pegar o trem seguinte, passar o oyster, parar no Tesco e comprar o jantar, amaldiçoar o vento por levantar minha saia com tanta força que preciso fazer malabarismos pra não ficar pelada no meio da rua, achar a chave. Onde foi parar a maldita chave? Sempre no último lugar que você procura, não importa o quê.

Entrar no elevador de volta para o 11° andar, esperando encontrar meus flatmates no sofá e conversar sobre o nosso dia. Se eu me concentrar bastante, ainda posso escutar o barulho da chaleira elétrica fervendo a água do café, ainda posso sentir o cheiro do molho carbonara que alguém fez pro jantar. Se eu me concentrar o suficiente, ainda consigo sentir como se nem tivesse ido embora.
Como se pudesse acordar a qualquer momento e viver todo esse dia mais uma vez.

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