Vida de Escritora #10 - Foi baseado em fatos reais?


Existem várias frases que qualquer pessoa que escreve ouve durante a vida:
"Você vai dar livro pras amigas quando sair, né?"
"Eu já escrevi uma história também!" "Foi mesmo?" "Foi, na aula de literatura da quinta série!"
"Mas você não ganha dinheiro escrevendo? Então por que você escreve?"

Mas não tem uma, umazinha sequer tão terrível quanto: "Foi baseado em fatos reais? E essa personagem... é você né?"
Anh... não! Se chama ficção por um motivo.


Um dia eu lembro de ter visto o John Green dizendo algo parecido. Tipo: "deixem os autores em paz! Eu também não sou nenhuma menina adolescente de 16 anos que teve câncer!"

Talvez tenha uma coisa ou outra que te inspire, mas, na maioria das vezes, é pura invenção. A maioria das minhas histórias vêm de sonhos, então você tira por aí!

Quando resolvi criar o universo de Tudo o que ela quer, eu imaginei que teria alguns problemas. Porque a Sara tem sim algumas características parecidas comigo, mas aposto que tem várias características parecidas com você também. Ela acredita na liberdade, ela acredita tentar ser feliz, nem que você comece procurando pelos lugares errados. Ela até acredita no amor, vez ou outra.

Mas ela é uma pessoa polêmica. Audaciosa. Acho que ela faz  e fala várias coisas de propósito só esperando pra saber quem vai ter peito o suficiente para contestar. Ela faz um monte de gente sofrer, ela colocou o nome do cachorro de Adolf. Ela faz um montão de coisa errada. Essa é ela. É Sara Montezuma. Não é eu. Não tem nada de mim. Eu odeio confrontos, eu morro de medo de decepcionar os outros e acho que Adolf foi um homem terrível responsável pela miséria de muita gente. E essa? Essa sou eu. Erika.

Nós somos duas pessoas completamente diferentes. Mesmo ela tendo saído de dentro de mim - da minha cabeça, e não por outros orifícios.

Eu costumo acreditar que, pra você escrever uma história de verdade, você não pode ter medo. Medo de chocar, medo do seu personagem ser errado demais ou ter problemas demais. Ele é uma pessoa como qualquer outra. Ele fala besteiras, ele faz besteiras e, pra escrever uma narrativa, você simplesmente precisa entrar dentro da cabeça dele. Saber tudo o que ele pensa, os segredos mais sombrios e macabros. E então colocar isso pra fora. Pra mim é assim que histórias funcionam. Tipo all or nothing.

Tem um monte de história que tem personagem racista, assassino, obcecado, fervoroso, preconceituoso, amargurado, cruel... Não quer dizer que quem escreveu a história é desse jeito. No máximo, talvez, as duas pessoas gostem de torta de maçã ou sei lá. Todos nós temos semelhanças, todos nós temos diferenças. Para um autor, o personagem é apenas mais uma pessoa no universo.

E, mais importante, não é porque um personagem falou algo que é exatamente verdade.
A Sara, por exemplo, é mestre em distorcer verdades. E, pelo fato de ela ser a narradora, ela pode até enganar você e você nem sabe. Sabe aquele negócio de que "sempre existem duas versões para a mesma história?" pois é.  A parte divertida com a Sara é que tudo pode ser verdade. Ou não.

Mas essa é a Sara. Não sou eu. Eu sou sincera. Até mais do que devia. Prometo pra vocês. Então quando eu tiver criado um personagem que é "baseado em fatos reais, tipo assim a minha cara, tipo assim meu alterego" pode deixar que vou contar!

E, se você quer uma dica de escrita: não tenha medo também. Se for pra amenizar toda a história com medo de seus leitores acharem que você é meio psicopata, melhor ficar nas auto-biografias mesmo!

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