Vida de escritora #2 - A importância da Revisão



Oi, meu nome é Érika, e eu sou uma perfeccionista.

Exigente, capricorniana, coisa e tal. Metade da minha existência é ficar frustrada que as coisas não saem da minha maneira, a outra metade é não ter tempo pra fazer tudo vezes e mais vezes e mais vezes até sentir que está perfeito.

Às vezes eu consigo largar o osso mais rápido, mas, normalmente, até a coisa passar pelo meu selo de aprovação, já teve três guerras, o apocalipse e uma nova fase da deriva continental.

Pra criar o blog, foi um parto. Foram uns dez partos, na verdade, até eu ficar finalmente satisfeita com o conteúdo e o layout. Meus projetos na faculdade de moda então… é largar pra não pirar. Por um lado, isso é bom. Por outros, é bem cansativo. Para a revisão de uma história, é perfeito!

A tendência de tudo no universo é ir melhorando à medida que você ajusta, repete, refaz. Então você vê o quanto isso é importante para um romance. A pior parte de uma publicação é um livro mal revisado.
Eu falo de narrativa. Eu falo de gramática.

Há alguns anos, li um livro que o nome do pai da personagem era Sérgio. Depois era Mário Alberto, e eu fiquei sem entender nada. E não era de autor independente não. Era livro de editora grande e de gente famosa.

Livros em primeira edição sempre são um problema também. A primeira edição mais recente que peguei foi um livro da Cassandra Clare, da série Instrumentos Mortais. Faltou espaçamento, faltava pontuação, em algum momento Jace virou Jack e por aí vai…

E só em pensar nas diferenças que a gente vê em séries de livros... já dá um nervoso! Os primeiros  são sempre mais cuidadosos, feitos com mais esmero, cheio de surpresinhas que te cativam como leitor. Do meio pro fim, a coisa normalmente começa a desandar. A autora está com pressa, ela tem prazos, os fãs estão enlouquecidos… e chega um momento que você acha que a série foi terminada por ghostwriters de tão diferente que fica.

Eu tinha 17 anos quando li o último Harry Potter. E mesmo lá, naquela época, senti que havia algo errado. E falava pra quem quisesse ouvir que a JK estava com tanta pressa pra terminar o negócio que esqueceu de trilhões de coisas. Recentemente, terminei o livro 6 de Instrumentos Mortais. Não vou dizer que achei uma palhaçada porque já falei várias vezes que sou apaixonada pelos personagens da Cassandra. Mas foi o nome mais perto de palhaçada que eu poderia falar sem xingar ninguém.

A mulher escreveu uma cena em que o Jace começou uma luta desarmado e teve que roubar uma espada ou sei lá o quê pra continuar a brincadeira. Quem acompanha a história desde o começo tem absoluta certeza que Jace nunca andaria sem, no mínimo, umas dez facas enfiadas pela roupa. E o final… ah, o final! O final pareceu tão fácil que é quase como… como se ela não tivesse se dado ao trabalho de revisar e reescrever aquilo da maneira emocionante e agridoce que um final precisa ser, pra deixar todo mundo com lágrimas nos olhos.

Acho que perdi a conta de quantas vezes eu revisei Tudo o que ela quer. E nem consigo descrever como a história melhorou desde 2010 - quando terminei  - até hoje. Os personagens evoluíram, os diálogos foram completamente reciclados. E até as palavras que eu usava antes eram diferentes das que uso hoje. As de hoje se encaixam muito melhor. Tudo se encaixa muito melhor.

Existe uma cena no livro que foi tão difícil e trabalhosa que devo ter reescrito umas 20 vezes! Era uma cena de amorzinho, mas, ao mesmo tempo, amargurada. Cruel, mas inocente. Sensível, mas seca. E, meu Deus, como era difícil acertar o tom! Em um momento ficava tudo sem emoção, em outro ficava tão emotiva que até fugia do personagem. Às vezes nem parecia que era realmente uma cena de amorzinho amargurada.

Quando finalmente achei que tudo estava okay e o livro foi pra revisão, essa cena voltou com um “que lindo” da revisora. Não voltou com um: Acho que isso não está dando certo.
Não voltou com um: tem certeza que quer ir por esse lado?
E, nem, na pior das hipóteses, voltou com o mais profundo silêncio. Porque era uma cena importante. Que eu queria que fosse importante. E, se alguém tomou um tempo pra escrever ‘que lindo’, quer dizer que não passou batido.
Quer dizer que todo o esforço que eu tive com aquele momento em particular serviu de alguma coisa.

Então revise e refaça quantas vezes for preciso. Às vezes você refaz uma cena e fica pior do que era antes, daí você muda tudo de novo e faz outra vez… e só assim consegue encontrar o ponto de equilíbrio que sempre sonhou. Quando achar que está tudo bom, deixe o livro de descanso por umas semanas e depois revise de novo. Ninguém precisa ser tão louco e noiado feito eu, mas imagine uma coisa: se eu, com todo meu perfeccionismo, tenho certeza que nem tudo vai estar 100% quando o livro for publicado, imagine o que pode acontecer se você for descuidado? Tragédia à vista, é o que eu digo!

E agora que você leu sua história uma última vez e acredita que não tem nada que poderia ser mudado, é hora de publicar, certo?
Erradíssimo! É hora de mandar para um profissional de revisão e, adivinha só? Revisar um pouco mais!

O revisor vai estar muito mais preparado que você para lidar com gramática, ortografia, pontuação. Ele é aquela visão de fora, que não tem nenhum envolvimento com sua trama. Ele nunca vai se envolver o suficiente pra deixar de perceber os erros. E, acredite, ele vai perceber coisas que você nunca tinha sonhado que haveria algum problema.

E nem vou falar dos outros não.
Dessa vez vou falar de mim.

Desde que tive problemas com a editora que ia publicar Tdqelaqr, fiquei bem cabreira. Desconfiando de tudo e de todos. E morro de medo dessa internet. Gente prometendo mundos e fundos, quando não tem a menor ideia do que está fazendo. Meu maior medo era contratar um revisor que soubesse menos português que eu! Então fui procurando conversar com outras escritoras independentes... e acabaram me indicando para uma revisora maravilhosa. Ela foi super acessível com os preços, super responsável com prazos e me deixou assustada com tanta coisa que eu ‘deixei passar’ no texto, mesmo depois de tantas e tantas revisões.

Na hora de editar e revisar, seu livro meio que se transforma em um canteiro de obras. Você corta algumas coisas e esquece que elas também foram mencionadas lá na frente. Personagens deixam de existir, mas o nome deles aparece em vários lugares da trama. Você tinha usado a preposição ‘por uma’, mas resolveu mudar para ‘pela’, e, de repente, seu texto fica: “ele passou por pela rua!”. Nem consigo lembrar quantas vezes minha revisora atentou para esses detalhes.

E essas são só as coisas que talvez você, como escritor, fosse notar em algum momento depois da quinquagésima oitava revisão, mas tem coisas, meus amigos, que eu achava que estavam às mil maravilhas!

E então vieram as notas da revisão:
Não entendi.
Tá ambíguo.
Tá inviável.
Tá totalmente alucicrazy.
O que você está tentando dizer com isso?

Gente, eu quase fiz Sara Montezuma entrar numa boate só de blusa e sem sapato, porque cortei a parte em que ela trocava de roupa e esqueci de mencionar alguma coisa sobre isso. Não que fosse algo impossível de acontecer vindo da Sara, mas existem limites para as coisas que eu gosto de contar e para as coisas loucas que a Sara deve fazer nas horas livres, quando não está sendo protagonista da minha história.

Então acreditem quando eu digo: revisar é mais que importante pra toda história. E fiquem sabendo que, não importa o quanto está bom, sempre pode melhorar. E é isso que a gente quer para os nossos bebês literários, certo?

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