Vida de Escritora #4 - Escreva o que você conhece



“Desenhe o que você vê, escreva o que você conhece” é um ditado que todo artista que se preze já deve ter escutado ao menos uma vez na vida. Eu, claro, adoro essa citação. Sou daquelas que gosta de viver. De experimentar todos os sabores e sensações e lugares… E nem consigo descrever o quanto isso influência nas coisas que escrevo.

Quando eu estava escrevendo Tudo o que ela quer, decidi que meu mocinho ia gostar de nadar. E eu pensei que era isso, sabe? Quão difícil pode ser? Ele está na piscina, as bochechas rosadas de exercício, um corpo levemente definido, ponto final. Foi só quando comecei a fazer natação que percebi que tinha tanto mais pra se falar. Os vários tipos de nado, a água no ouvido, a marca dos óculos nos olhos, a espirradeira, o nariz escorrendo, o bronze inevitável não importa o quanto de protetor solar você passe (a não ser que seja uma piscina coberta, ou você nade à noite, sei lá). Tinha aquele monte de equipamento, a postura sempre ereta, e tantos outros detalhes que serviriam pra enriquecer a narrativa e tornar a experiência do leitor muito mais real.

Eu sei que é impossível viver de tudo. Às vezes, preciso escrever sobre lugares onde nunca fui. Quando eu tinha 12 anos (vamos esquecer o fato de que, enfim, eu só tinha 12 anos), escrevi uma história que se passava na Flórida. Porque eu era fã dos Backstreet Boys e… meu passado negro não vem ao caso! O que aconteceu é que lá estava eu, escrevendo minha história, quando, de repente, fiz nevar. Em Tampa. Flórida. Em pleno mês de agosto.

É, foi um exemplo bem exagerado, mas é o tipo de coisa que acontece. Serviu pra que eu aprendesse. Toda vez que lembro dessa história, morro de medo de fazer algo sequer parecido outra vez.

O problema é que todo escritor adora desafios. Eu já tinha escrito uma história enorme que se passava aqui em Fortaleza, precisava escolher um novo lugar. Escolhi Campos do Jordão. Mesmo sem nunca ter ido até lá. Cresci em uma cidade pequena na serra, e isso ajudou na escrita, mas ainda não era Campos. Ainda não tinha como saber se estava fazendo certo. Então quase morri com tanta pesquisa: pedi fotos pras amigas que foram lá, perguntei como era, fuçava facebooks/blogs/qualquer coisa de gente que nunca tinha visto na vida, mas que morava lá ou tinha sequer viajado pra lá. Eu tinha o Google Earth como meu melhor amigo. Ruas, fotos, altitude, vegetação… Tudo. E, quando surgiu o Street view… Queria morrer de alegria! Então eu via sites de vendas de imóveis, sites de restaurantes e hotéis, até o portal da prefeitura devo ter visto algumas vezes.

E, não, antes que você pergunte, ainda não tive a oportunidade de ir em Campos, mas fiz o melhor que pude. E, exatamente por isso, eu sei que ainda estou esquecendo alguma coisa. Algum detalhe, alguma sensação, alguma coisa que nunca vivi e que não terei a oportunidade de fazer o leitor vivenciar também.

E é exatamente aqui que quero chegar. Sim, você pode escrever sobre estar bêbado sem nunca ter bebido, pode escrever algum pornô bondage à la 50 tons de cinza sem nunca ter visto um cara pelado na vida. Mas o que eu quero dizer é: você sempre vai perder alguma coisa.

Escreva o que conhece! - É a regra, mas, como arte não é ciência, a gente acaba quebrando essas regrinhas vez ou outra. Até onde eu sei, você pode fazer sua pesquisa inteira pela Wikipedia e escrever uma história incrível. Agora vamos analisar bem a situação: quando alguém lê, está procurando experimentar coisas novas, viver novas vidas, se encantar por um novo mundo, fazer coisas que nunca fez… só com o poder da mente. Esse alguém não quer ler informações que pode achar facilmente em qualquer buraco da internet. Ele quer sentir exatamente o que o personagem sente quando está vivendo aquele momento, naquele determinado lugar. E é seu trabalho como escritor proporcionar isso a ele.

E essa, meus amores, é minha dica pra hoje!
Tente, procure, se jogue, experimente, dê o seu melhor. Então escreva.

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