Vida de Escritora #6 - Características que denunciam o autor principiante



Já devo ter cometido uns erros terríveis e continuarei cometendo outros até o último dia da minha vida literária, então não se acanhe. Também não se ofenda, não sou Oráculo Grego, não sou Deus, não sou nenhuma entidade suprema dona da verdade. Mas, quando comecei a escrever, eu fazia coisas que não faria hoje nas minhas histórias nem se me pagassem um milhão. Tá, talvez se me pagassem um milhão!
São coisas que, se eu encontrar em algum livro, vão me deixar nervosa. Vão partir meu coração, provavelmente me fazer colocar o livro de lado e pensar: “Eu fazia isso quando tinha 14 anos! Qual a sua desculpa?”
Resolvi então fazer uma lista de ideias literárias que, na minha opinião, acabam empobrecendo o texto e denunciando o autor principiante ou desleixado ou os dois.

1- Usar referências temporais demais.

Isso vai tornar sua história, daqui a dez ou cinco anos, velha para o leitor. Eles vão se perguntar, por exemplo, o que diabos é Fotolog, Orkut ou Facebook. Você não quer isso. Você quer uma história atemporal, que possa ser lida hoje ou daqui a cem anos e continue a fazer sentido.
Eu evito tudo que está muito em evidência, evito até mencionar celebridades que estão velhas demais para viverem mais uns 10, 20 anos. Tá, talvez eu seja meio obcecada. Mas faz sentindo, não faz?
Até entendo que você queira colocar datas e anos na sua história. Eu não coloco por preferências pessoais, mas, se você acha importante, principalmente se o romance se correlacionar de alguma maneira a acontecimentos históricos, não vejo problema nenhum. Mas, se deixar sem datas, é melhor ser um pouco mais sutil com as referências.

Li um livro lançado em 2008, por exemplo, onde a personagem contava todo tipo de coisa que tinha postado no orkut dela, e eu passei o livro inteiro com aquela cara de "Supera, amigue!". Falo isso por mim também. Terminei minha primeira história aos 16 anos. Isso quase dez anos atrás. Fui dar uma olhada no arquivo ano passado e juro pra você que não lembrava da existência de nenhuma das bandas que citei durante a história. Então foi meio que uma lição pra mim: never ever again!

2- Disparates, perguntinhas, questionários.

Na minha opinião, empobrece o texto sim! Se você quer mencionar as características ou gostos do personagens, fale ao longo da história, ou use um parágrafo para isso, não jogue um clichê assim no seu livro. A não ser que seja um livro juvenil, para meninos e meninas de no máximo 13 anos. Eles ainda aceitam esse tipo de coisa. Um leitor mais maduro vai revirar os olhos para o seu disparate e pensar que ele podia estar lendo coisa melhor. Onde as frases deram ao menos algum trabalho para serem construídas.
Garotas de 12 anos fazem disparates e questionários.
Você é um escritor. Você é melhor que isso.

3- Enrolar demais

- Oi.
- Olá!
- Como você está!
- bem e você?
- Mais ou menos. Derramei meu suco em cima da minha blusa de seda nova no brunch. Mas vamos falar de você? O que conta de novo?

- blá blá blá e mais um monte de coisa que não é relevante para a história.
Tudo bem, foi um exemplo exagerado. Mas já vi coisas beeeem parecidas.
Seus personagens não precisam começar todas as conversas com oi. Eles podem começar com uma frase inteligente. Podem ir direto ao assunto. Tempo é dinheiro. A página escrita do seu livro é dinheiro. As linhas não servem de nada além de adicionar monotonia e acabar com o ritmo da narrativa.
Então, a não ser que exista alguma ênfase nos ois, olás e como vai? Melhor deixar de lado.
Tipo: eles tiveram uma briga da ultima vez que se viram. E ele tem coragem de falar oi? E perguntar como ela está? Como ousa?
Tipo: o suco derramado na blusa de seda seja a solução para algum mistério que será respondido no final da história, será o começo de algo maior.

Você precisa SEMPRE se perguntar se essa palavra/frase/parágrafo é útil para:
a) definir a personalidade de um ou mais dos meus personagens?
b) demonstrar a intensidade dos acontecimentos da cena? 
c) relevância para a trama geral?
Se você respondeu sim para uma das perguntas, pode ficar. Se responder não: delete! Não importa se é uma das suas cenas favoritas. Se não diz nada pra você, não diz nada para a história e não leva a lugar nenhum.


4- Ir direto ao ponto


O casal se conhece na página 1. Se apaixona na página 3. Troca declarações de amor na página 5. E todo o resto da historia não passa de uma baita choradeira entre os dois até ficarem juntos no final.
Nesse sentido, acho a trama de filmes perfeita.
Os personagens começam a história cada um do seu lado, fazendo suas coisas, vivendo sua vida. E algo acontece para deixar os dois juntos. Eles nunca se conhecem no primeiro segundo do filme e se apaixonam dois minutos depois. Tudo tem seu tempo. Tudo segue seu ritmo.

5- Livros Americanizados

Esse é uma das características que eu mais abomino. De um jeito que dá vontade de esfregar a cara do autor no asfalto e coisa do tipo.
Olha, não tenho preconceito nenhum com EUA, Inglaterra e todo o resto. Amo viagens e experimentar culturas diferentes. Mas, por favor, se você vai escrever uma história no Brasil, qual a necessidade de dar um nome E um sobrenome inglês para o seu personagem?
Se esse nome não tiver nenhuma explicação plausível e digna de aplauso, você só vai tirar a veracidade da história. Um livro tem como maior característica fazer você mergulhar no universo. E eu não consigo mergulhar no universo onde o mocinho mora, sei lá, no interior de Minas Gerais e se chama Jack Cooper. Ou se o cara que se apaixona pela mocinha é algum brasileiro que, de repente, virou a maior celebridade que Hollywood já viu e tudo parece normal. Existem dois tipos de história: romance e fantasia. Se eu quero ler coisas tão improváveis, fico com meu Guia do Mochileiro das Galáxias, meu Harry Potter e coisa e tal…

Então, pimpolho… existem tantos nomes bonitos no Brasil.
Escolha. Quer um nome inglês? Mudem o cenário. Escolha diferentes nacionalidades e nomes no mundo. Eu entendo que você não queira nomear sua personagem Maria da Silva. Você quer um nome forte, diferente.
Mas vamos pensar um instante... Nós somos brasileiros. Somos descendentes de italianos, portugueses, alemães, japoneses, poloneses, espanhóis. Alguns franceses por ali, uns holandeses por acolá. Pouquíssimos britânicos. Pouquíssissimos americanos. Inglês deve ser o tipo de sobrenome que nós brasileiros menos temos. Quer um nome interessante? Pesquise sites de árvores genealógicas, crie uma história para o nome da sua personagem, invente tradições de família...

E claaaro que você pode dizer que o personagem é seu e você dá o nome que quiser pra ele... Bom, ótimo! Só não me faça engolir essa trama e achar que você é o melhor escritor do mundo. O nome de um personagem é uma das características mais marcantes dele. Faça valer.

6 - Sonhos

Sonhos em histórias. Por favor. Somente, SOMENTE se eles forem relacionados à trama.
Tipo: garota sonha com acontecimentos futuros, garota sofreu um trauma e sonha toda noite com o que aconteceu.
E isso ainda com bastante cautela. Só se for mesmo necessário.
Mas, de jeito nenhum, venha me contar o sonho que Fulana teve sobre Cicrano. Eles estavam passeando, ele disse que amava ela e, na hora do beijo, ela acordou.
NÃO ACONTECEU. Não importa.
Mencione que sonhou com ele, no máximo. Não passe uma página inteira descrevendo algo que não aconteceu. Só vai deixar seu leitor puto da vida, se sentindo traído, enganado e como se tivesse perdido alguns minutos que nunca vai ter de volta. Pelo menos é sempre assim que eu fico.

Eu queria falar mais um pouco sobre diálogos, mas acho melhor deixar pra outro post. Acho que já despejei rancor e reclamação demais em cima de vocês por hoje. Mas prometo que não estou sendo ruim, só vim deixar um pouco de food for thought. O livro ainda é seu, você ainda faz o que quiser com ele. Mas faz um pouco de sentido, não faz?

Concordam? Discordam? A área de comentários está linda e liberada aí embaixo. Beijos e até a próxima.

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