Vida de escritora #7 - Número de palavras


Quando a gente escreve por prazer, o que menos importa é aquele contadorzinho de palavras do word, certo? Mas então você termina de escrever o livro e começa a pensar no futuro: sua noite de autógrafos, a belezura na estante, a diagramação de cada página. É no meio do sonho que você acorda e acaba percebendo que, se continuar do jeito que está, seu livro teria uma média de 600 páginas! Isso mesmo! Seiscentos em extenso pra você não se confundir! Estou falando de um livro de 160 mil palavras.


Essa foi a quantidade de palavras do primeiro livro que escrevi e, coincidentemente, a quantidade de palavras de Tudo o que ela quer quando terminei a primeira versão. E, bom, não precisa ser um gênio do mundo moderno pra perceber a inviabilidade de tudo isso.

Eu precisava resolver o problema e fui logo eliminando todas as cenas que não acrescentavam à narrativa, excluindo personagens que apareceram sem motivo, diálogos muito longos, descrições muito detalhadas. No momento em que enviei a obra para a editora, ela tinha quase 110 mil palavras. Foi dividida em 420 páginas, o que ainda era muito para uma obra de autor iniciante, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer. Qualquer cena que eu excluísse ia destruir metade da história, metade de mim... Não ia ser bonito.

As mudanças foram meio que um tiro no meu pé. Quando reli a obra meses e meses depois, achei a história seca, sem emoção, rápida demais. tá, que parte disso era culpa da personalidade da narradora. A Sara é direta, sincera. Não tenta enrolar, nem amenizar as verdades. Apenas vai direto ao ponto. Isso é coisa dela e não posso realmente mudar (quisera eu mudar o modo de pensar dos meus personagens), mas não havia só ela na história. Os outros personagens acabaram um pouco ofuscados. Eles precisavam de vida própria, de mais detalhes. Eu precisava melhorar algumas cenas... e lá se foi o Word se tornando meu mais novo canteiro de obras. Semanas de mudanças e leituras e mudanças de novo, e eu já tinha 127.000 palavras.

É, era um ciclo sem fim. Eu cortava cenas, empobrecia a história. Enriquecia a história, acabava ficando muito grande. Optei por uma revisão diferente. Em vez de excluir cenas e momentos, exclui parágrafos, frases, palavras. Palavra por palavra, ao fim da revisão eu tinha 20 mil a menos!

E eu sei que isso parece aquelas propagandas de remédio para emagrecer "E funciona mesmo!", mas é uma lógica bem fácil de analisar. A maioria das frases pode ser dita com uma palavra a menos, a maioria dos parágrafos pode ser explicada com uma frase a menos. A maioria dos capítulos pode sobreviver sem aqueles dois ou três parágrafos que nem falavam muita coisa no final das contas.

É triste? É. Aquele é seu filho e você está lá, trucidando o coitado, destroçando tudo... Mas é um mal necessário se você tiver interesse em publicar sua obra. Pra se ter ideia, nenhum agente literário nos Estados Unidos aceitaria um manuscrito de autor iniciante com mais de cem mil palavras. Claro que existem as exceções, mas, a maioria prefere apostar em obras menores, na faixa de 80 mil palavras. Faz a gente pensar, não? Se uma história tão completa e cheia de aventura como Harry Potter e a Pedra Filosofal foi escrita em 76944 palavras, por que preciso do dobro para contar a minha?

Acredito que as editoras brasileiras não são tão fixadas nesse negócio de números exatos, mas é sempre bom não fugir tanto assim dos padrões, certo? Ninguém quer uma história incrível sendo rejeitada só porque está grande demais ou pequena demais (não sei como é possível, mas ouvi falar que esse tipo existe também. Não comigo, no sir!). As editoras lá fora costumam calcular esses padrões de acordo com gêneros. Mais ou menos assim:

Chick-lit: 80 a 100 mil palavras
Fantasia e aventura: 90 a 120 mil palavras
Young Adult: 50 a 80 mil palavras
New Adult: 60 a 85 mil palavras
Policial e suspense: 80 a 100 mil palavras
Ficção científica: 80 a 125 mil palavras
Romance histórico: 100 a 120 mil palavras  

Como já falei, exceções estão aí pra provar que elas existem. Se você acredita no seu livro do jeito que está, se tem certeza absoluta de que não tiraria nada, vale a pena arriscar. Qualidade sempre vence quantidade, é o que dizem.

Em TQEQ, eu sinto que cheguei naquele ponto de que não há mais nada que possa ficar diferente, então estou feliz com minhas quase 108 mil palavras e lutei por cada uma delas. Se você está nessa condição também, já pode vir comigo e tentar descobrir o tamanho que seu livro vai ficar ao comparar com os livros já existentes no mercado. Aqui alguns deles:

O Grande Gatsby: 47.094
A culpa é das estrelas: 67.203
Percy Jackson: O Ladrão de raios: 87.223
Jogos Vorazes: 99.750
Lolita: 112.473
Crepúsculo: 115.362
Orgulho e Preconceito: 123.880
Cidade dos Ossos: 128.000
O Código da Vinci: 138.380
Cem anos de Solidão: 144.523
Os homens que não amavam as mulheres: 165.392

 E, se você está escrevendo aquela mesma história há uns dez anos, talvez um dos Gigantes da literatura clássica:

Anna Karenina: 349.736
Dom Quixote: 390.883
E o vento levou: 418.053
Guerra e Paz: 587.287
Em busca do tempo perdido: 1.267.069 

Por falar em clássicos, acabei saindo de um Mansfield Park (com 159.344 palavras) direto para um Morro dos Ventos Uivantes (com 107,945)... já posso sentir a estante mais levinha.

E vocês, escritores, se enquadram em que lugar da lista?

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