Vida de escritora #8 - Criando personagens marcantes

A primeira coisa que um escritor precisa saber é que cada personagem é uma pessoa real. Bem, tá, eu não sou esquizofrênica, eu sei que um personagem não é exatamente uma pessoa real, mas ele é real no mundo em que estou escrevendo. E, tudo, absolutamente tudo na história precisa ser real na minha cabeça e precisa fazer todo o sentido do mundo para que funcione.

E eu adoro, simplesmente adoro livros em que os personagens são tão distintos e tão fortes que cada um deles sobreviveria sozinho onde quer que fosse. Meu exemplo favorito é a série Instrumentos Mortais, da Cassandra Clare. Eu gosto de ver personagens morrendo em livros de aventura, lutas, guerras, porque trás mais veracidade à coisa, mas, com os livros da Cassandra, simplesmente não conseguia escolher quem eu mataria, de qual deles eu sentiria menos falta. Porque mesmo não sendo protagonistas, todos eles traziam um charme a mais para a história. Magnus Bane com aquele jeito blazé e experiente, Alec meio esquentadinho mas sempre leal, Isabelle tão forte e fodona, Jace durão e sexy, Simon metido a engraçadinho, Luke como o pai que a Clary nunca teve, sempre protegendo e aparecendo nas horas certas... Até os vilões tinham lá seu certo charme.

Outra bom exemplo é a série Estilhaça-me. Apesar de ter O.D.I.A.D.O o último livro e achado a trama bem fraca. Na verdade, achei a trama toda da história um pouco fraca e achei que, se tirassem metade da choradeira da Juliette, todos os acontecimentos se resumiriam em um só volume. Mas são quatro palavras, quatro palavrinhas que, na minha opinião, são responsáveis pelo sucesso do livro: Juliette, Warner, Adam e Kenji. Simplesmente porque cada um deles tem uma voz única. De verdade. Aposto que se você colocar falas de cada um deles, embaralhar tudo e retirar os nomes, todo mundo que leu a história vai saber identificar quem falou o quê. A Juliette sempre tão poética e cheia de metáforas, o Adam tão seco e rígido e intenso. O Kenji com sua fala sempre tão fácil, realista, cômica. E o Warner, que foi o personagem mais eloquente que já vi na vida.

E, vou falar pra você, não acho que é fácil criar personagens assim. É um dos maiores desafios de um escritor. Aprender a fazer essa diferenciação, aprender a transformar esses seres míticos que só existem na nossa imaginação em pessoas reais.

Alguns personagens vêm com mais facilidade que outros, tomam seu lugar e você já sabe quem ele é e o que ele faria como se o conhecesse a vida todo. Outros você precisa criar do zero mesmo. E precisa encontrar alguma maneira de conhecê-los bem, bem a fundo. Tipo tomar umas cervejas com ele e ver o que você descobre.
(Por favor, não tome cerveja em um bar com seu personagem! Todo mundo vai achar que você enlouqueceu!)

Tenho duas dicas para ajudar você com isso: A primeira é descobrir quem você quer que o seu personagem seja antes de começar a escrever. Isso porque a história pode tomar rumos completamente diferentes, dependendo de quem é seu protagonista. A segunda, é decidir quem vai ser seu personagem de acordo com o rumo quer que a história tome.

Eu estou sofrendo horrores, HORRORES, no meu novo livro. Já devo ter reescrito umas cinco, seis vezes, porque quero que a história tome um rumo que a personagem que escolhi não consegue tomar. Mas toda a história se passa ao redor dessa trama, se eu mudar a trama, eu mudo tudo. A única solução, mudar a cabeça do personagem. E quem escreve sabe que isso não é fácil. Porque esses safados acabam criando vida própria de uma hora para outra e você que se vire tentando contornar a situação.

Minha trama começa dois meses depois que a Olivia, minha nova protagonista, fugiu meia hora antes da festa de formatura no colégio interno. E então ela passou dois meses desaparecida e, quando volta, ela conhece o Levi - que acabou de terminar um namoro de quatro anos e não quer compromisso - e os dois concordam que não precisam falar sobre amor. Só sexo. E você espera que ela seja uma maluca rebelde feito Sara Montezuma, certo? Mas não, a Oli é rica, elegante, educada e inteligente, ela estudou em colégio de luxo a vida inteira, conseguiu uma vaga para a faculdade nos estados unidos, gosta de escrever histórias e tem uma coleção de tipo 500 livros escondidos embaixo da cama.

Se eu mudar alguma parte da trama, eu vou perder toda a ideia que estou tentando passar. Então o jeito, o jeito foi voltar ao começo mais uma vez e tentar descobrir que tipo de pessoa tem essa vida que estou querendo criar e segue o mesmo rumo da história que está na minha cabeça. E, foi com essa decisão, que resolvi destrinchar a Olivia por inteiro.

Desde o começo. Desde antes de ela nascer. Quem eram os avós dela, quem eram os pais, como eles se conheceram, onde ela nasceu, em que ano, como era passou a infância, como foi o aniversário de seis anos dela, como era um dia de aula da Olivia quando ela estava na quinta série, qual a comida favorita dela, a banda favorita, o filme favorito, que peça de roupa ela tinha no armário há anos e nunca jogava fora, qual o sabor de bolo que ela mais gostava... Resolvi ir a fundo em todos os detalhes, conhecer a Olivia como nem mesmo ela se conhecia, conhecer todos os pontos fracos e fortes, todos os medos e desejos.

Foi só assim, quando ela se desvendou na minha frente, que eu consegui achar o tom certo para a história e para a narração. É uma história em primeira pessoa, em narrativas em primeira pessoa, o pensamento do protagonista está sempre em evidência. E eu precisava conhecer a Oli e todos os segredos dela para que esses pensamentos se projetassem na narrativa E, mais importante, fossem fiéis aos acontecimentos da trama.


E, bom, você pode criar um questionário por conta própria, assim você descobre tudo o que queria saber sobre seu personagem. Foi isso que eu fiz... (e saí com 12 páginas escritas no meu sketchbook sobre a Oli), mas também recomendo que você responda às perguntas de outras pessoas. Só assim você descobre coisas que nunca nem passaram pela sua cabeça, tipo: "Nomeie todos os itens que seu personagem guarda na primeira gaveta da mesinha de cabeceira! Valendo!"

Achei vários formulários de personagens aqui na internet, mas como foi tudo em inglês, resolvi traduzir alguns e postar aqui para vocês!

Adicionar legenda
(ps: É só clicar na imagem que dá pra visualizar ela do tamanho original, o que facilita pra salvar, imprimir, ler, etc.)


E esse, meus amores, é o formulário que eu fiz para a Olivia! Como falei para vocês, foram 12 páginas! Então se preparem que é muita coisa! Mas vale muito a pena, porque agora não existe nada, nadinha sobre a Oli que eu não saiba!



Enorme, né? Mas pra quem tá acostumada a escolher playlists, fotos de personagens, construir e decorar casas no the sims, montar painéis no pinterest, criar looks no polyvore, respirar literatura... é só mais um dia na vida do escritor!

HÁ! Esse post é para você que acha que os escritores só criam personagens que são seu alter-ego e baseados em fatos reais e coisas assim... Suck it! Porque o buraco é bem mais fundo que você imaginava.

beijos e espero que tenham gostado
=D

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